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por José Augusto Nigro Conceição
No início dos anos sessenta, um pequeno grupo de pediatras da Escola Paulista de Medicina, preocupados em oferecer uma nova opção para atendimento de urgência para crianças e adolescentes na cidade de São Paulo, inclusive como cobertura para os pediatras por ocasião de suas eventuais ausências de São Paulo ou impedimento momentâneo, - Amadeu de Carvalho Paço Filho, Azarias de Andrade Carvalho, Benjamin Israel Kopelman, Calil Kairala Farhat, Charles Kirov Naspitz, Fernando José da Nóbrega e Nelson Jorge, reúnem-se e decidem criar um Pronto Socorro Infantil.
Para a montagem da equipe de fundadores, por iniciativa de Charles, contatam-se colegas de outras Instituições, com a finalidade de que, na equipe, se mesclem pediatras de outros Centros, particularmente de ensino médico e que colaborem na divulgação da entidade em formação. Assim, convidam-se Israel Henrique Bogochvol, originário da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e José Augusto Nigro Conceição, da Clínica Pediátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Este último, estendeu o convite para José Lauro Araújo Ramos, que aceita compor o grupo do HC. Esses dois do HC, recém-saídos de uma frustrada experiência com o Pronto Socorro Infantil Brigadeiro Luiz Antônio, propõem algumas condições para participarem do grupo em formação. Preocupados em verificar a adaptação a essa nova situação, eles trabalhariam desde o início do funcionamento, em igualdade de condições com os demais sócios, com os mesmos direitos e obrigações, ficando, entretanto, exonerados de qualquer
contribuição econômica até o dia 10 de julho de 1962, data estipulada para que se decidissem, em caráter definitivo, sobre o ingresso na sociedade. Resolvendo ingressar como sócios teriam assegurado o direito de fazê-lo mediante a integralização, na ocasião, de parcela idêntica à dos demais quotistas, além dos pagamentos referentes a benfeitorias realizadas na sede do Pronto Socorro, com a aquisição de materiais e demais despesas devidamente contabilizadas. Optando pela negativa, deveriam fazê-lo por escrito e pelos serviços até então prestados à sociedade, receberiam remuneração idêntica à que estivesse sendo paga pelo Pronto Socorro Infantil Angélica aos seus plantonistas. Assinam esse contrato em 20 de março de 1962 os oito sócios, incluindo Israel Henrique Bogochvol, com o "De acordo" dos dois do Hospital das Clínicas e pelo advogado Luiz Scwartz, como testemunha.
Constitui-se então uma sociedade limitada, que adquire o acervo do Pronto Socorro Infantil Higienópolis, situado na Rua Alagoas, 57, esquina com a Rua Sabará, pertencente aos Drs. Jaime Abovski, Jaime Roizman. Nesse casarão antigo, assobradado, tem início o Pronto Socorro Infantil Sabará Ltda., cujo nome deriva da sua localização.
Foto de outubro de 1963 - José Augusto Nigro Conceição
Após o prazo estipulado, com a competente alteração contratual, ambos do HC optam pelo ingresso no grupo e procedem conforme contrato.
A inauguração do Sabará é realizada em 14 de abril de 1962, com uma recepção muito concorrida no próprio Pronto Socorro, às 11 horas da manhã. Charles foi o primeiro plantonista a exercer tais funções e, às 14 horas do mesmo dia, é admitido o primeiro paciente.
À época, o principal Pronto Socorro Infantil em São Paulo, então existente, era o P.S.I. Angélica, localizado no final da Avenida de mesmo nome.
Uma das primeiras e mais importantes medidas técnicas do grupo, após discussão conjunta, é o estabelecimento de uma padronização de condutas de atendimento médico para uniformizar o padrão de atenção a ser dado ao paciente, confiado aos cuidados do Sabará, independente do pediatra que o atendesse. Essas normas de conduta, bem como os procedimentos, abrangem as patologias pediátricas de urgências mais comuns na prática e são constantemente atualizadas. Os pediatras externos, no entanto, têm total abertura para, se necessário, atender em ambulatório seus clientes particulares, nas dependências do Sabará.
Charles assume a Diretoria Administrativa, Nóbrega a Tesouraria e o Prof. Azarias a Diretoria Clínica, sendo o único que não participa dos plantões.
Desde a inauguração e por muitos anos, os fundadores revezam-se e, durante os plantões, além do atendimento à demanda de pacientes externos e daqueles internados desenvolvem outras atividades como tirar, revelar e interpretar radiografias; manter em funcionamento a central de oxigênio, trocando os torpedos quando necessário; bem como atividades administrativas, como fornecimento de dinheiro para pequenas compras urgentes, contabilização dos atendimentos e anotação das entradas e saídas de dinheiro em um livro caixa. Como o número de funcionários é restrito e somente os fundadores exercem funções médicas, às noites, abrem a porta para clientes e cobram as consultas diretamente.
Nessa ocasião, todos os sócios já desenvolvem atividades em várias entidades médicas, exercendo suas carreiras acadêmicas, além do exercício da medicina privada em seus consultórios. Como norma, acorda-se, desde o início, que o médico então de plantão que recebesse um cliente seu para consulta, durante seu trabalho, a remuneração paga pelo cliente seria da instituição. Cerca de quatro anos depois, ao considerar que essa atividade de plantão prejudica à que lhe era prioritária – seu consultório -, Amadeu, em carta datada de 01.07.1966, dirigida aos colegas Israel, Calil e José Augusto, solicita seu desligamento da sociedade, por motivos particulares. Tal solicitação é plenamente aceita por todos e, com ela, sua saída da sociedade.
O casarão na Rua Alagoas, 57, logo à sua entrada, tem um grande salão, com a área de recepção ao meio - sob a escadaria de madeira que, ladeando ambos os lados da recepção, dá acesso ao andar superior com 12 quartos para internação. Logo à esquerda, da entrada, um consultório amplo e, à direita, uma sala cirúrgica com pequena mesa cirúrgica, iluminada por um foco de luz feito artesanalmente com faróis de automóveis, utilizada para procedimentos de emergência como suturas e traqueostomia, mas, basicamente, para tratamento dentário de crianças deficientes. Ao lado desta, duas outras saletas utilizadas também como área de procedimentos. Ao fundo do salão, à direita, uma sala para procedimentos administrativos do plantão, bem como uma passagem por um corredor para a cozinha, que ao meio, dá entrada para uma pequena enfermaria. A organização técnica, na área de enfermagem, é realizada por auxiliar de enfermagem - Dona Adelita Cruz -, com larga experiência no Pronto Socorro de Pediatria do Hospital das Clínicas. Em termos de equipamentos, dispunha-se, apenas de um antigo aparelho de Raios X, utilizado para radioscopia e feitura de radiografias reveladas em uma pequena câmara escura. Quando se precisou manter a respiração de uma criança entubada sem se dispor de respirador, o meio utilizado foi ensinar e solicitar a uma atendente de enfermagem - naquele tempo existia! - que obstruísse intermitentemente o orifício da cânula endotraqueal para que a saída de ar dos pulmões fosse interrompida e o oxigênio ligado a ela pudesse expandir nos pulmões.
O sistema de atividades adotado sem a contratação de médicos permite que, desde o início, o Sabará seja economicamente um empreendimento de sucesso, principalmente pela associação de competência técnica e Ética. Assim, o grupo se prepara para crescer: dois anos após sua fundação, em 1964, adquire um terreno de 310m², na Rua Dona Antônia de Queiroz e, em 1966, compra o terreno vizinho, de mesma área e em março de 1968, inicia-se a construção de sua sede própria, com cinco pavimentos.
A construção do hospital ocorre na época do Regime Militar, na qual há grandes dúvidas a respeito da evolução da política governamental na área de saúde, principalmente em termos de eventual estatização da medicina. Desta forma, os fundadores optam por uma conduta cautelosa e adotam uma estrutura física de construção que possibilita que os terceiro e quarto andares permaneçam como grandes áreas vazias e que, oportunamente, poderiam receber quaisquer tipos de divisórias para diversas finalidades, na dependência da evolução das políticas de saúde.
Da esquerda para a direita, José Lauro, Israel, Nelson e Charles.
Ainda durante a construção da sede própria, em setembro de 1969, Charles, em entrevista à revista "O Médico Moderno", afirma que "crescemos muito nos últimos anos, principalmente graças à boa qualidade dos serviços prestados e aos colegas que nos prestigiaram".
Charles e Israel
Ainda em 1969, por iniciativa do Israel, foi criado o logotipo do Sabará: uma criança estilizada que, ao mesmo tempo, dava também a ideia de uma cruz como símbolo de instituição da área de saúde.
Histórias reais, médicas e não-médicas, no velho casarão
- Certa vez, no começo do funcionamento do Pronto Socorro, ocorre a visita de um colega administrador hospitalar, para conhecer nossas instalações. Ao adentrar na área interna, ante um armário enorme que servia de depósito organizado de medicamentos, ele não se conteve e perguntou: "Você não acha que esses medicamentos deveriam estar fechados em uma sala, com uma pessoa para tomar conta do armazenamento organizado, guarda e dispensação? Você não acha que pode haver desvios de medicamentos pelos funcionários?" Após concordar com ele, disse-lhe que, por enquanto, face ao pequeno volume de medicamentos estocados, o eventual desvio de algum medicamento ainda ficaria mais barato do que contratar pessoas para exercer essas funções.
- Logo no inicio do Sabará necessitávamos de pessoal especializado para tocar um Laboratório de Análises Clínicas, principalmente para atendimento nas urgências. Nessas circunstâncias, entramos em contato com o Laboratório Lavoisier, pertencente aos colegas Oswaldo Cruz, Aron Diament e Benjamin Schimidt e fizemos uma parceria muito duradoura.
- Um colega do HC - DP - internou o filho de um militar com febre e dores abdominais. Depois de examinar a criança o colega afirmou que, pela suspeita de apendicite, ele precisaria ouvir a opinião de um cirurgião. O cirurgião compareceu, e também achou o paciente suspeito, porém ponderou que seria melhor aguardar um pouco a evolução, antes de optar pela cirurgia. Após a saída do cirurgião, o colega ouviu do militar: "Dr. se meu filho morrer, o senhor vai junto!". Felizmente, com a melhora, o paciente saiu-se bem e o colega também.
- Outra situação que não vivi, mas me foi contada por um de nossos colegas do Sabará, foi que em certa noite fria de seu plantão, atendeu à porta um pai desesperado porque seu filho estava ardendo em febre. O pai solicitou-lhe que fosse atender o filho em sua casa, ali perto. O colega argumentou que não poderia deixar o Pronto Socorro, pois os pacientes internados poderiam precisar dele e ele teria que os atender. Contou-me que o pai, não aceitando sua argumentação, bateu com a mão, ao lado, na altura de sua cintura e lhe perguntou decidido: "O senhor vai ou não vai atender o meu filho em casa?". Não lhe restou alternativa: ele foi!
- Nas férias de janeiro, no final da década de sessenta, meu filho mais velho, foi trazido de Santos com febre muito alta, que não baixava e, apesar disso, não suava. Não fazia ideia do que poderia ser, além de pensar em alguma infecção. Chamei o Professor Azarias e ele diagnosticou "insolação", que acho ter sido a primeira e última vez que vi: a exposição prolongada ao sol intenso, além de queimadura na pele, pode ocasionar, por ação no sistema nervoso central, um bloqueio na transpiração, falta de perda de calor, pele seca e consequente febre muito alta. Um dos quartos do Pronto Socorro, no andar superior, tinha uma grande banheira e ali ele passou a ser "refrigerado" para baixar a temperatura. Afinal, tudo se passou e nada restou.
- Provavelmente em 1965, em meu plantão, recebi uma criança que havia ingerido sulfona, usada por parente para tratamento de hanseníase. O medicamento era comercializado em drágeas multicoloridas, semelhantes a determinados confeitos e muito chamativas para as crianças, o que as levava a ingeri-las, quando encontradas. Essa criança apresentava-se sonolenta, falta de ar e pele azulada (cianose), particularmente nas extremidades, causada pela metahemoglobinemia resultante da intoxicação. Dependendo da intensidade, essa intoxicação pode levar à morte, pois a ligação da sulfa à hemoglobina forma um composto estável, que impede a função básica da hemoglobina na liberação de CO2 do sangue venoso e sua troca por oxigênio nos pulmões – a chamada respiração externa – e, no interior dos tecidos – a respiração interna – com liberação de oxigênio e sua troca pelo CO2 que é levado para os pulmões. Esclareci a gravidade da situação e informei à família a necessidade de se ouvir um médico experiente em
intoxicação e que, do meu conhecimento, esse médico era Samuel Schwartzman. Com a concordância da família tentei entrar em contato telefônico em sua casa e fui informado que ele estava no Guarujá. Como ninguém soubesse sua localização exata – naquele tempo não havia celular! – ocorreu-me dizer à família que, pela grande audiência da novela "O Direito de Nascer", da TV Tupi, a inserção de um pedido para o Dr. Samuel entrar em contato com o Pronto Socorro Sabará, em um intervalo, muito provavelmente, se ele não estivesse assistindo a novela, alguém que o conhecesse, avisá-lo-ia. Pouco depois da "nota" no intervalo da novela, recebi seu telefonema, expliquei-lhe a situação e a criança foi medicada conforme sua orientação e recuperou-se bem. Algumas horas depois, recebi um telefonema de alguém que se intitulava médico do serviço de fiscalização da medicina, que contestava o sistema utilizado para procura do colega por entender que estávamos fazendo uma propaganda indevida. Após informá-lo que esta
foi a única maneira de conseguir contato com o colega e que, se ocorresse novamente, faria da mesma forma, em benefício do paciente, desliguei o telefone. Nunca soube se o fato foi verídico ou um trote, o certo é que não recebemos nenhuma intimação posterior.
- Outro caso, não me lembro a data, foi absolutamente único em toda minha vida de mais de quarenta anos de Pediatria. Em um dos meus plantões, compareceu muito assustado, um colega pediatra, membro de outro Pronto Socorro Infantil, trazendo seu filho com cerca de cinco anos de idade e contando a seguinte história: "Meu filho estava com febre e vômitos e ficou desidratado. Eu o levei para o meu Pronto Socorro, prescrevi um soro e, após o primeiro frasco, verifiquei que, confundido pela semelhança da embalagem, foi administrado um frasco de glicerina na veia!" Disse-lhe que nunca havia visto um caso desse tipo e após examinar o paciente, informei-o que, "se glicerina na veia não der os sinais que estou encontrando no exame, seu filho está com meningite". O liquor confirmou essa hipótese e o paciente medicado saiu-se bem e essa história, não tendo sido publicada, ficou adormecida no prontuário. Até hoje não havia lido nada a respeito, porém em 20 de maio de 2010, soube que, em 2005, na Revista
Brasileira de Toxicologia, Vol. 18, p. 288, há o relato de um caso de administração endovenosa equivocada de glicerina. Infelizmente não consegui acesso a tal trabalho.
- Certo dia, foi trazida ao Sabará, na esquina Sabará com a Alagoas, uma criança que havia tido uma queda da varanda de um andar alto de um prédio em Higienópolis. O colega que a recebeu não sabia o que fazer. A criança teve sua queda amortecida na fiação de rua e, aparentemente estava bem, porém a história o deixara perturbado. Assim, ele aplicou uma injeção analgésica, muito mais para dizer que não praticou omissão de socorro e a enviou de imediato para o Hospital das Clínicas. Lá chegando, em que pese suas boas condições aparentes, preferiram deixá-la internada, em observação por algumas horas. Comprovada a impressão inicial de que nada sofrera, recebeu alta. Por essas coisas que acontecem e que são difíceis de entender, seus pais, levaram-na, tempos depois, ao Sabará porque estava com um quadro diagnosticado de sarampo. Seus pais relembraram que a criança já havia estado ali quando caiu de um prédio e que se salvou e, contaram que, por decisão do pai, a criança não havia sido vacinada
contra sarampo. Dias depois, com broncopneumonia ela veio a falecer: escapou, como que por milagre da queda e faleceu por falta de uma vacina.
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